O consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em comunidades urbanas brasileiras é um desafio complexo, impulsionado por uma teia de fatores sociais que vão além da simples escolha individual. Uma pesquisa recente, divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), lançou luz sobre essa realidade, apontando a sobrecarga materna, o preço atraente desses produtos e até mesmo componentes afetivos como elementos cruciais que levam famílias a priorizar esses itens na dieta de seus filhos.

O que são alimentos ultraprocessados e seus riscos

Para compreender a dimensão do problema, é fundamental entender o que são os ultraprocessados. Diferente dos alimentos minimamente processados (como frutas, verduras, carnes frescas) ou dos processados (que levam sal, açúcar ou óleo para aumentar a durabilidade, como pães e queijos), os ultraprocessados são formulações industriais. Eles são criados a partir da mistura de ingredientes muitas vezes extraídos de alimentos naturais, mas combinados com aditivos químicos como corantes, aromatizantes, emulsificantes e espessantes. Essa engenharia alimentar resulta em produtos de baixo custo de produção, longa validade e, principalmente, com sabores intensos e texturas que tendem a viciar o paladar.

O consumo regular desses produtos é uma preocupação crescente para a saúde pública. Evidências científicas robustas mostram uma forte associação entre a ingestão de ultraprocessados e o aumento do risco de diversas condições crônicas. Entre elas, destacam-se a obesidade, o diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares, certos tipos de câncer e até mesmo transtornos como a depressão. Os danos não são imediatos, mas cumulativos, dificultando a percepção dos riscos a curto prazo e tornando o controle do consumo um desafio ainda maior para as famílias e para o sistema de saúde.

O cenário da pesquisa: a realidade nas comunidades

O estudo do Unicef entrevistou aproximadamente 600 famílias em três comunidades urbanas distintas do Brasil: Guamá (Belém-PA), Ibura (Recife-PE) e Pavuna (Rio de Janeiro-RJ). Apesar de 84% dos entrevistados se declararem muito preocupados em oferecer uma alimentação saudável aos seus familiares, a prática revela um cenário diferente. Em metade dos lares pesquisados, alimentos ultraprocessados eram parte constante do lanche das crianças. O problema se estende ao café da manhã, com um em cada quatro lares incluindo esses produtos na primeira refeição do dia. Entre os itens mais presentes nas despensas das famílias, destacam-se iogurte com sabor, embutidos, biscoito recheado, refrigerante e macarrão instantâneo.

A sobrecarga materna: um fator decisivo

Um dos pontos cruciais destacados pela pesquisa é a sobrecarga imposta às mulheres no contexto da alimentação familiar. No universo das famílias ouvidas, impressionantes 87% das mães eram as responsáveis pela compra e pela oferta de alimentos às crianças, e 82% delas também assumiam a tarefa de preparar as refeições. Em contraste, entre os pais, apenas 40% compravam alimentos, 27% cozinhavam e 31% ofereciam a comida aos filhos. Essa disparidade evidencia uma divisão de trabalho desequilibrada.

Stephanie Amaral, oficial de Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, ressaltou que “muitas mães fazem isso sozinhas, além de trabalhar fora. É uma sobrecarga que acaba fazendo com que a praticidade dos alimentos ultraprocessados pese muito mais”. Para uma mãe que enfrenta jornadas duplas ou triplas, a conveniência de um pacote de biscoitos ou um macarrão instantâneo pode se tornar uma solução temporária e compreensível diante da exaustão e da falta de tempo para preparar refeições do zero.

Desconhecimento e a falha da rotulagem

Outro pilar que sustenta o consumo de ultraprocessados é a falta de informação ou o desconhecimento sobre esses produtos. Muitas famílias, mesmo preocupadas com a saúde, classificam erroneamente itens ultraprocessados como saudáveis. Exemplos comuns incluem os iogurtes com sabor, que frequentemente contêm altos níveis de açúcar e aditivos, e até mesmo os nuggets de frango fritos na airfryer, que, apesar do método de preparo mais saudável, ainda são ultraprocessados em sua essência.

A nova rotulagem frontal, que exige avisos claros sobre alto teor de sódio, açúcar e gorduras saturadas, embora seja um avanço, ainda enfrenta desafios práticos. A pesquisa revelou que 26% dos entrevistados não compreendiam o significado desses alertas. Mais alarmante, 55% admitiram nunca observar os avisos nos rótulos, e 62% nunca deixaram de comprar um produto por causa deles. Isso sugere que, isoladamente, a rotulagem pode não ser suficiente para alterar hábitos enraizados, necessitando de ações complementares de educação e conscientização.

O apelo do preço e o componente afetivo

A percepção de preço desempenha um papel significativo nas escolhas alimentares. A maioria das famílias (67%) considera sucos de caixinha, salgadinhos e refrigerantes como baratos, tornando-os opções economicamente acessíveis. Em contrapartida, alimentos frescos e nutritivos são vistos como caros: 68% das famílias consideram legumes e verduras com valores elevados, proporção que sobe para 76% no caso das frutas e alarmantes 94% para as carnes. Essa disparidade de preço coloca as famílias em uma situação delicada, muitas vezes forçadas a optar pelo que cabe no orçamento, mesmo que não seja o mais saudável.

Além do aspecto financeiro, a pesquisa identificou um forte componente afetivo. Stephanie Amaral explica que “essas pessoas não tinham dinheiro para comprar os alimentos que elas queriam quando eram crianças, então agora elas se sentem felizes por poder comprar o que a criança quer comer.” Essa dinâmica emocional, onde os ultraprocessados, muitas vezes com embalagens coloridas e personagens infantis, são associados a uma “infância feliz” e à capacidade dos pais de prover, adiciona uma camada de complexidade cultural à questão do consumo.

O papel estratégico da escola

Diante de um cenário tão multifacetado, a escola emerge como um ambiente com potencial transformador. A oficial do Unicef destaca que as famílias depositam grande confiança na alimentação escolar. Essa confiança abre uma porta para que as instituições de ensino não apenas ofereçam refeições saudáveis, mas também promovam a educação nutricional para as crianças e, por extensão, para suas famílias. A merenda escolar de qualidade e programas educativos podem ser pilares na construção de hábitos alimentares mais saudáveis e na desmistificação dos ultraprocessados.

Recomendações para um futuro mais saudável

O estudo conclui com recomendações claras para enfrentar o desafio do consumo de ultraprocessados. É fundamental fortalecer a regulação desses alimentos, avançando em medidas como a restrição da publicidade infantil, a tributação de produtos ultraprocessados para desestimular seu consumo e a promoção de ambientes escolares saudáveis, que limitem a exposição e o acesso a esses itens. Além disso, a expansão de creches e escolas em tempo integral é apontada como uma estratégia essencial para garantir que mais crianças tenham acesso a refeições nutritivas e ambientes que favoreçam escolhas alimentares adequadas.

O desafio do consumo de ultraprocessados é um reflexo de complexas questões sociais, econômicas e culturais que afetam diretamente a saúde e o bem-estar das famílias brasileiras. Compreender esses fatores é o primeiro passo para construir um futuro onde o acesso à alimentação saudável seja uma realidade para todos. Para continuar recebendo informações relevantes, práticas e atualizadas sobre saúde, bem-estar e alimentação, acompanhe os conteúdos do Renova Receita.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br