Em um marco significativo para a história da saúde pública e dos direitos humanos no Brasil, duas importantes instituições de ensino superior, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vieram a público para se desculpar formalmente pelo uso de corpos de pessoas internadas em hospitais psiquiátricos em suas aulas de anatomia, em um passado não tão distante. As declarações, divulgadas pela UFMG no mês passado e pela UFJF nesta segunda-feira (18), ressaltam uma dolorosa faceta da história brasileira e o papel que as universidades, mesmo que indiretamente, tiveram na perpetuação de práticas desumanas.

Este reconhecimento público não é apenas um pedido de perdão, mas um convite à reflexão sobre a dignidade humana, a ética na ciência e a importância da luta antimanicomial. Ao assumirem sua “conivência em dos momentos mais sensíveis da história da saúde pública do país”, como a UFJF expressou em sua carta aberta, as universidades jogam luz sobre um período sombrio marcado pela segregação e pela invisibilização de indivíduos com transtornos mentais.

O Legado dos Manicômios: Desumanização e Violação de Direitos

A história dos hospitais psiquiátricos no Brasil é, em grande parte, uma narrativa de isolamento, estigma e violência. Aqueles que não se encaixavam nos padrões sociais eram frequentemente submetidos a condições mínimas de sobrevivência e a práticas punitivas, em nome de uma suposta segurança coletiva. Essa segregação resultou na desumanização de milhares de pessoas, transformando a “loucura” em sinônimo de incapacidade e periculosidade, e contribuindo para a consolidação de estigmas e discriminações que perduram até hoje.

Nesse contexto, critérios como gênero, classe social, orientação sexual e raça eram frequentemente utilizados para hierarquizar e marginalizar pessoas, perpetuando ciclos de exclusão. O desprezo por esses indivíduos atingiu proporções alarmantes, culminando em uma das páginas mais tristes da história brasileira, onde a dignidade humana foi sistematicamente negada, mesmo após a morte.

O Caso do Hospital Colônia de Barbacena: Um Símbolo da Tragédia

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa realidade é o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. O local tornou-se um símbolo da marginalização e invisibilização dos pacientes, onde, segundo estimativas, mais de 60 mil pessoas morreram ao longo do século XX. Muitas dessas vítimas, classificadas como indigentes, não tiveram sequer o direito a um enterro digno. O livro “Holocausto Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, revela que 1.853 corpos de internos foram comercializados e destinados a instituições de ensino da área da saúde para serem utilizados em aulas de anatomia.

Essa prática hedionda, hoje impensável sob uma ótica de direitos humanos e ética biomédica, mostra a dimensão da desumanização. Os corpos, desprovidos de identidade e respeito, serviram a propósitos acadêmicos, sem qualquer consentimento, reiterando a violação da dignidade de pessoas que já haviam sido brutalmente excluídas em vida.

As Desculpas e o Caminho para a Reparação

A UFJF e a UFMG reconhecem sua ligação com esse passado. A UFJF, por exemplo, admitiu ter recebido 169 corpos do Hospital de Barbacena entre 1962 e 1971, para estudo em aulas de anatomia humana. Como forma de reparação simbólica e de compromisso com a memória, a universidade se comprometeu a lançar e manter iniciativas como ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental, buscar apoio para a criação de um memorial e organizar pesquisas documentais sobre as conexões entre a instituição e o Hospital Colônia.

Em um tom semelhante, a UFMG também formalizou seu pedido de desculpas, reconhecendo publicamente sua responsabilidade. Suas ações incluem a colaboração com grupos da luta antimanicomial para ações de memória, a restauração do livro histórico de registro de cadáveres e a inclusão do tema em disciplinas de anatomia da Faculdade de Medicina. Estas medidas não apenas honram os que foram vitimados, mas também visam educar as futuras gerações de profissionais de saúde sobre a importância da ética e do respeito à dignidade humana.

A Evolução das Práticas Éticas no Ensino de Anatomia

É fundamental destacar que as práticas atuais das universidades refletem uma evolução significativa. Desde 2010, o Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF implementou o Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo. Atualmente, todos os corpos recebidos pela instituição provêm exclusivamente de doações voluntárias, em conformidade com as normas vigentes e o respeito à dignidade humana. Da mesma forma, a UFMG mantém um programa de doação de corpos para estudo de anatomia desde 1999, baseado no consentimento voluntário, alinhado a padrões éticos e legais internacionais.

Esses programas são exemplos de como as instituições de ensino têm buscado se alinhar com princípios éticos contemporâneos, garantindo que o avanço do conhecimento científico e a formação de profissionais de saúde ocorram sem desrespeitar a vontade e a dignidade dos indivíduos, mesmo após a morte.

A Luta Antimanicomial: Um Olhar para o Futuro

As desculpas das universidades reforçam a relevância contínua da luta antimanicomial. Este movimento social e político busca transformar o modelo de atenção à saúde mental, promovendo a desinstitucionalização e o tratamento humanizado, baseado na liberdade, na autonomia e nos direitos das pessoas. Embora grandes avanços tenham sido feitos, desafios persistem, como a garantia de tratamento humanizado em todas as instâncias e a revisão de estruturas como os manicômios judiciários, que ainda combinam o pior da prisão e do hospício, conforme alertam especialistas.

O trabalho de figuras como a psiquiatra Nise da Silveira, que revolucionou tratamentos ao aliar cuidados humanizados e arte, serve de inspiração e prova que é possível abordar a saúde mental com respeito e criatividade. O reconhecimento dos erros do passado pelas universidades é um passo crucial para construir um futuro onde a “loucura” não seja mais estigmatizada, mas compreendida como uma parte da experiência humana, que exige cuidado, empatia e dignidade.

Impactos Práticos e a Reflexão Necessária para o Leitor

Para o dia a dia do leitor, este episódio serve como um poderoso lembrete da importância de questionar e valorizar os direitos humanos em todos os contextos, inclusive na ciência e na educação. A forma como uma sociedade trata seus membros mais vulneráveis reflete seus valores fundamentais. É um convite à vigilância para que histórias de desumanização como a de Barbacena nunca mais se repitam, e para que cada indivíduo seja reconhecido em sua plenitude e dignidade.

É também uma reflexão sobre a responsabilidade social das instituições e a necessidade de que a busca pelo conhecimento seja sempre guiada pela ética e pelo respeito à vida. As informações sobre a origem de materiais de estudo, a garantia de consentimento e a transparência em processos acadêmicos são aspectos práticos que todos podem e devem valorizar.

As desculpas da UFJF e da UFMG são mais do que um ato de reparação histórica; são um compromisso com o futuro da saúde mental no Brasil e um passo essencial para fortalecer a confiança entre a sociedade e as instituições de ensino. Elas reafirmam o valor da dignidade humana e a necessidade de que a ciência caminhe lado a lado com a ética.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. José Henrique Sandoval Gonçalves
Médico Responsável Técnico da Renova Receita | CRM 23826/DF | CRM 26277/SC
Especialista em Clínica Médica e Medicina de Família e Comunidade.
Última revisão: maio/2026Saiba mais sobre o médico responsável