Em um cenário de crescente preocupação com a saúde pública, grandes instituições de pesquisa do Brasil, como o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), estão unindo esforços para criar um documento abrangente. O objetivo é estabelecer diretrizes e recomendações claras para estudos sobre os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs), mais conhecidos como cigarros eletrônicos ou vapes. Essa iniciativa visa fortalecer a base científica necessária para orientar políticas públicas eficazes e proteger a população.

A ação conjunta é um passo crucial para organizar e impulsionar a pesquisa em um tema que tem se mostrado um desafio global. Com a rápida evolução e disseminação desses produtos, é fundamental que o conhecimento científico acompanhe essa velocidade, fornecendo dados robustos sobre os impactos dos DEFs na saúde e na sociedade. O documento em questão será assinado por representantes do Inca, da Fiocruz e de diversas universidades e centros de pesquisa de todo o país, reforçando o caráter nacional e colaborativo da iniciativa.

Entenda os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs)

Os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) são uma categoria ampla que inclui cigarros eletrônicos, vapes, pods, e-hookahs e produtos de tabaco aquecido. Embora frequentemente comercializados com a promessa de serem alternativas menos prejudiciais ou ferramentas para parar de fumar, a verdade é que os DEFs contêm substâncias químicas que podem ser altamente nocivas à saúde. Eles funcionam aquecendo um líquido, que geralmente contém nicotina (em altas concentrações), aromatizantes e outras substâncias, transformando-o em um aerossol inalável.

A variedade de sabores, o design moderno e a facilidade de uso contribuem para a popularidade desses produtos, especialmente entre jovens e adolescentes. No entanto, essa aceitação esconde riscos significativos. Muitos usuários, inclusive, não têm plena consciência das substâncias que estão inalando, nem do potencial vício que a nicotina presente nesses dispositivos pode causar, por vezes, em doses muito superiores às encontradas em cigarros convencionais.

Por que a urgência em fortalecer a pesquisa sobre vapes?

A preocupação com os DEFs não é recente. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mantém a proibição da comercialização, importação e propaganda desses produtos desde 2009, reafirmada em 2024. Contudo, o mercado ilegal persiste e a falta de dados científicos específicos sobre a realidade brasileira dificulta o desenvolvimento de estratégias de saúde pública mais assertivas e a fiscalização efetiva. É nesse contexto que a iniciativa do Inca e da Fiocruz ganha ainda mais relevância.

Riscos à saúde e o impacto nas novas gerações

As evidências científicas globais já apontam para diversos malefícios dos DEFs, incluindo danos pulmonares graves, problemas cardiovasculares, irritação das vias aéreas e, claro, a forte dependência de nicotina. O diretor-geral do Inca, Roberto Gil, enfatizou que essa questão representa uma ameaça à saúde da população brasileira, “sobretudo das novas gerações”. A facilidade de acesso e a atratividade dos vapes podem servir como porta de entrada para o tabagismo tradicional, revertendo anos de campanhas de controle do tabaco.

Para além da dependência química, estudos preliminares sugerem que o uso de DEFs pode estar associado a quadros de ansiedade, depressão e problemas de concentração, especialmente em adolescentes. A inalação de substâncias como propilenoglicol, glicerol, aldeídos, metais pesados e partículas ultrafinas levanta sérias preocupações sobre os efeitos a longo prazo no desenvolvimento pulmonar e neurológico de jovens.

O desafio da rápida evolução e das estratégias da indústria

A indústria do tabaco, buscando contornar as restrições aos cigarros convencionais, tem investido pesado na inovação e na publicidade (muitas vezes velada) dos DEFs. A pesquisadora Ana Paula Natividade, coordenadora substituta do Centro de Estudos sobre Tabaco e Saúde (Cetab/Fiocruz), ressaltou que “o avanço acelerado desses produtos e das estratégias da indústria do tabaco exige respostas científicas igualmente rápidas e coordenadas”. Isso significa que as pesquisas precisam ser ágeis, robustas e capazes de gerar informações atualizadas para embasar a tomada de decisões em saúde.

O seminário e as próximas etapas

As diretrizes que estão sendo elaboradas foram debatidas intensamente no seminário “Construindo uma Agenda de Pesquisa Prioritária sobre Dispositivos Eletrônicos para Fumar para o Brasil”, realizado no Rio de Janeiro. O evento reuniu especialistas para identificar lacunas no conhecimento existente e definir prioridades de pesquisa que atendam às necessidades específicas do país.

Como ponto de partida, os pesquisadores analisaram um levantamento que identificou 59 estudos sobre os impactos dos DEFs na literatura científica nacional, realizados entre 2019 e março de 2025. Essas pesquisas abordam desde os danos diretos à saúde humana até dados epidemiológicos sobre experimentação e uso, além de aspectos regulatórios e de políticas públicas. A carta conjunta que resultará desse esforço consolidará as recomendações, servindo como um guia para a comunidade científica e para os gestores de saúde.

O papel da ciência na proteção da saúde pública

A iniciativa coordenada pelo Inca e Fiocruz é um exemplo claro de como a ciência pode e deve atuar como pilar fundamental para a saúde pública. Ao fortalecer a base de evidências sobre os DEFs, o Brasil estará mais preparado para: aprimorar as regulamentações existentes; desenvolver campanhas de prevenção e conscientização mais eficazes, especialmente direcionadas aos jovens; e oferecer suporte adequado àqueles que desejam abandonar o uso desses dispositivos.

As pesquisas futuras deverão aprofundar-se em áreas como os efeitos a longo prazo dos DEFs, a interação desses dispositivos com outras substâncias, os fatores sociais e econômicos que influenciam o seu uso, e a eficácia de diferentes abordagens regulatórias. Esse conhecimento permitirá que o país desenvolva uma resposta mais abrangente e adaptada aos desafios que os vapes impõem à saúde da população.

O esforço conjunto de Inca, Fiocruz e diversas universidades é um sinal inequívoco da seriedade com que as instituições brasileiras de saúde encaram a ameaça dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar. Com a consolidação de uma agenda de pesquisa prioritária, espera-se que o Brasil possa avançar na proteção da saúde de seus cidadãos, fundamentado em dados científicos sólidos e atualizados. Para continuar bem-informado sobre temas que impactam sua saúde e bem-estar, e acessar conteúdos variados e informações confiáveis, acompanhe sempre o Renova Receita.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br