Cuidar da visão é um ato de prevenção e bem-estar que se estende por todas as fases da vida. Mas, afinal, qual é a frequência ideal para visitar o oftalmologista? Será que a idade, a presença de doenças crônicas como o diabetes, ou o histórico familiar influenciam nessa decisão? Compreender a periodicidade correta das consultas é fundamental para proteger a saúde ocular e identificar precocemente condições que podem comprometer a visão de forma irreversível.

Para esclarecer essas e outras dúvidas cruciais, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) publicou um documento que serve como um guia essencial. Divulgado durante o 70º Congresso da especialidade, o material reforça a importância da consulta periódica com um oftalmologista como um cuidado indispensável para a saúde ocular. Essa recomendação não é apenas para pacientes, mas também para familiares e profissionais de outras áreas da saúde, consolidando a ideia de que o acompanhamento oftalmológico é um pilar da saúde geral. É por meio desse encontro com o especialista que se torna possível o diagnóstico precoce e o tratamento adequado de diversas doenças que afetam a visão, muitas delas silenciosas.

A importância da periodicidade na prevenção e no bem-estar

A consulta oftalmológica deve ser planejada conforme a idade e a existência de comorbidades. Essa atenção é vital porque o exame permite identificar enfermidades que avançam sem sintomas aparentes e que, uma vez estabelecidas, podem causar perda visual permanente. Os intervalos sugeridos são referências mínimas para pessoas que não possuem doenças oculares diagnosticadas nem fatores de risco conhecidos. Eles funcionam como um ponto de partida, que pode e deve ser ajustado pelo médico em casos específicos, levando em conta o quadro clínico individual.

Recomendações para cada faixa etária

A saúde dos olhos começa a ser monitorada logo nos primeiros dias de vida, e a vigilância se adapta conforme o desenvolvimento e as necessidades de cada fase, garantindo um acompanhamento contínuo e adequado.

<b>Recém-nascidos:</b> O primeiro e crucial exame é o Teste do Reflexo Vermelho, feito pelo pediatra nas primeiras 72 horas de vida ou antes da alta da maternidade. Ele tem como objetivo detectar precocemente problemas como catarata congênita, glaucoma congênito ou retinoblastoma (um tipo raro de tumor ocular). Se houver qualquer alteração ou suspeita, o bebê deve ser encaminhado urgentemente a um oftalmologista pediátrico para investigação e tratamento.

<b>De 0 a 36 meses:</b> O Teste do Reflexo Vermelho deve ser repetido nas consultas pediátricas de rotina, pelo menos três vezes ao ano durante os primeiros três anos de vida. Além disso, o pediatra avalia os marcos do desenvolvimento visual, a capacidade de fixação do olhar e o alinhamento ocular. Essas observações são essenciais para detectar precocemente o estrabismo (olhos desalinhados) ou a ambliopia (popularmente conhecida como 'olho preguiçoso'), condições que, se não tratadas a tempo, podem comprometer a visão de forma duradoura.

<b>De 6 a 12 meses:</b> Este período marca a recomendação da primeira consulta oftalmológica completa. Nela, o oftalmologista busca detectar e tratar falhas no desenvolvimento visual, como erros refrativos significativos ou estrabismo, que podem passar despercebidos em exames mais superficiais, mas que são cruciais para o bom desenvolvimento da visão binocular.

<b>De 3 a 5 anos:</b> É recomendada pelo menos uma consulta oftalmológica completa, idealmente antes da alfabetização. Nela, o especialista fará a inspeção dos olhos e anexos, avaliação da função visual, testes de motilidade e alinhamento, refração sob cicloplegia (um exame que mede o grau real do olho após o uso de colírios que relaxam a acomodação, evitando erros na prescrição de óculos) e o exame de fundo de olho sob dilatação. Essa avaliação é crucial para detectar vícios de refração, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, e outros problemas que, se não corrigidos, podem dificultar o aprendizado e o desempenho escolar.

<b>Idade escolar e adolescência (até 18 anos):</b> A reavaliação periódica é importante, com uma avaliação oftalmológica completa recomendada entre 12 e 18 anos. Este é um período em que a miopia (dificuldade para enxergar de longe) costuma surgir e progredir rapidamente. Fatores como o uso excessivo de telas, a leitura prolongada e a menor exposição à luz natural têm sido associados ao aumento da miopia em estudantes. O acompanhamento ajuda a monitorar essa evolução e a gerenciar a miopia, minimizando os riscos futuros de complicações mais graves.

<b>Adultos até 39 anos:</b> A avaliação periódica é indicada mesmo na ausência de sintomas. Doenças oculares relevantes, como o glaucoma inicial, certas distrofias corneanas ou o desenvolvimento de erros refrativos que afetam a qualidade de vida, podem se manifestar nessa faixa etária sem sinais evidentes, tornando o exame preventivo indispensável para um diagnóstico precoce e intervenção oportuna.

<b>A partir dos 40 anos:</b> A consulta anual torna-se prioritária. A prevalência de glaucoma, por exemplo, eleva-se para cerca de 2% após os 40 anos, e a presbiopia, popularmente conhecida como 'vista cansada' (dificuldade de focar objetos de perto), manifesta-se progressivamente, exigindo correção com óculos para leitura. O acompanhamento regular permite o diagnóstico precoce e o manejo dessas condições, além de outras alterações relacionadas à idade que podem impactar significativamente a qualidade de vida.

<b>Idosos:</b> O acompanhamento anual, no mínimo, é crucial e exige atenção redobrada. Catarata senil (opacificação do cristalino) e glaucoma são condições muito comuns nessa faixa etária, podendo levar à cegueira se não tratadas. Além disso, a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), uma das principais causas de cegueira irreversível em idosos, atinge uma porcentagem significativa da população acima dos 70 anos. O monitoramento contínuo é vital para detectar, gerenciar e, quando possível, retardar a progressão dessas doenças, visando preservar a visão e garantir autonomia.

Doenças crônicas e fatores de risco: atenção redobrada

Para indivíduos com diagnóstico de doenças crônicas, histórico familiar de patologias oculares ou exposição a circunstâncias específicas, o documento do CBO enfatiza a necessidade de intensificar o acompanhamento. Nesses casos, os intervalos das consultas são definidos pelo oftalmologista, após uma avaliação individualizada, que considera a gravidade da condição, o risco de progressão e as particularidades do paciente. Cabe sempre ao médico especialista determinar a frequência exata e os exames complementares necessários.

Principais fatores a serem considerados

<b>Diabetes:</b> Cerca de 50% dos pacientes com diabetes podem desenvolver algum grau de retinopatia diabética, uma complicação grave que afeta os vasos sanguíneos da retina e, se não tratada, pode levar à cegueira. Essa proporção pode chegar a aproximadamente 80% após 25 anos de doença. Pacientes diabéticos têm um risco significativamente maior de perda de visão em comparação com a população geral. Recomenda-se uma avaliação oftalmológica com pupilas dilatadas já no momento do diagnóstico de diabetes e acompanhamento regular, mesmo que não haja queixas visuais. Gestantes com diabetes necessitam de acompanhamento oftalmológico ainda mais específico e frequente devido às rápidas mudanças hormonais que podem acelerar a retinopatia.

<b>Histórico familiar de glaucoma:</b> O glaucoma é uma doença que danifica o nervo óptico, geralmente associado à pressão intraocular elevada, e é uma das principais causas de cegueira irreversível. Parentes de primeiro grau de indivíduos com glaucoma têm entre quatro e oito vezes mais chances de desenvolver a doença. Pessoas com mais de 50 anos, afrodescendentes e pacientes com pressão intraocular elevada compõem o grupo de risco e devem ser submetidos a um exame oftalmológico completo em qualquer idade. Este exame deve incluir fundoscopia (avaliação do nervo óptico) e tonometria (medição da pressão intraocular), que são essenciais para o diagnóstico precoce e o manejo da doença.

<b>Histórico familiar de outras doenças oculares:</b> Condições como ceratocone (uma deformidade progressiva da córnea), distrofias corneanas e retinose pigmentar (doença degenerativa da retina), que possuem forte transmissão genética, justificam uma avaliação antecipada e um acompanhamento periódico dos familiares. O conhecimento do histórico familiar permite uma abordagem preventiva e terapêutica mais eficaz, muitas vezes com aconselhamento genético e monitoramento específico para retardar a progressão da doença ou manejar seus sintomas.

<b>Miopia e miopia elevada:</b> Além da necessidade de correção visual com óculos ou lentes de contato, a miopia, especialmente em graus elevados (alta miopia), aumenta o risco de complicações sérias. Entre elas estão o deslocamento de retina, o desenvolvimento de glaucoma e certas degenerações maculares. O monitoramento constante por um oftalmologista é crucial para detectar e gerenciar esses riscos, preservando a integridade da retina e do nervo óptico, e garantindo a saúde visual a longo prazo.

Em resumo, a saúde ocular é um reflexo do cuidado contínuo e preventivo. As recomendações de periodicidade das consultas oftalmológicas são um valioso recurso para guiar essa jornada, mas a decisão final e a personalização do acompanhamento sempre estarão nas mãos do médico oftalmologista, que considerará as particularidades de cada paciente. Manter essa rotina de exames é um investimento na sua qualidade de vida e na preservação de um dos sentidos mais preciosos, permitindo desfrutar plenamente do mundo ao seu redor.

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Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br