A garantia de uma formação médica de excelência é um pilar fundamental para a saúde de qualquer nação. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina (CFM) tem se empenhado em aprimorar os padrões de avaliação e capacitação dos futuros profissionais. Recentemente, essa busca por qualidade ganhou um importante capítulo com a reunião entre o CFM e representantes do Royal College of Physicians and Surgeons do Canadá. O encontro, que contou com a presença de Tai Telesco e Carlos Gomes, focou no intercâmbio de experiências sobre formação e avaliação médica, e na cooperação técnica para o desenvolvimento do Exame Nacional de Proficiência (ProfiMed), uma iniciativa que promete elevar a régua da medicina brasileira.

O Cenário Atual da Medicina no Brasil: Desafios e Necessidades

Para contextualizar a importância dessa parceria, é crucial entender o panorama do ensino médico no Brasil. Nos últimos 20 anos, o país testemunhou um crescimento exponencial no número de escolas de medicina, passando de 115 instituições em 2002 para uma projeção de 494 em 2025. Embora a expansão pudesse, em tese, ampliar o acesso à formação, ela trouxe consigo sérios desafios em termos de qualidade e infraestrutura. A preocupação central reside no fato de que aproximadamente 78% dessas escolas não possuem as condições mínimas necessárias para um ensino de alto nível, como hospitais de ensino adequados, laboratórios de anatomia bem equipados e equipes de atenção primária capacitadas para o treinamento prático dos estudantes. Essa carência reflete-se diretamente na qualidade da formação recebida, impactando a capacidade dos futuros médicos de lidar com as complexidades da prática clínica.

Outro ponto crítico que assola o sistema de saúde brasileiro é a grande disparidade entre o número de médicos recém-formados e as vagas de residência médica disponíveis. Anualmente, cerca de 50 mil novos médicos concluem a graduação, mas apenas a metade desse contingente, aproximadamente 25 mil, consegue uma vaga para especialização por meio da residência. Essa defasagem lança no mercado de trabalho milhares de médicos generalistas sem a formação especializada que é tão vital para um atendimento de saúde mais complexo e abrangente. A consequência direta é a sobrecarga sobre esses profissionais e, muitas vezes, a impossibilidade de aprofundar seus conhecimentos em áreas específicas, o que pode afetar a qualidade do cuidado oferecido à população.

ProfiMed: A Resposta para a Qualidade da Formação

Diante desses desafios, o Conselho Federal de Medicina tem trabalhado arduamente na implementação do ProfiMed, o Exame Nacional de Proficiência. Esta iniciativa surge como uma ferramenta essencial para combater a queda na qualidade da formação médica e assegurar que os profissionais que atuam no país possuam as competências mínimas necessárias. A proposta do ProfiMed tem amplo apoio, com 90% dos médicos e 96% da população brasileira reconhecendo sua importância. O exame será dividido em duas etapas fundamentais para uma avaliação completa e multifacetada:

Avaliação de Conhecimento

A primeira etapa consistirá em uma prova objetiva de múltipla escolha, desenhada para verificar os conhecimentos teóricos e a base conceitual adquirida pelos candidatos durante a graduação. É um teste crucial para aferir o domínio dos fundamentos da medicina.

Avaliação de Habilidades e Atitudes

A segunda fase do ProfiMed se destaca por sua abordagem inovadora e prática, utilizando o modelo VOSCE (Virtual Objective Structured Clinical Examination – Exame Clínico Objetivo Estruturado Virtual). Diferente de provas teóricas tradicionais, o VOSCE simula cenários clínicos reais, permitindo que o candidato demonstre suas habilidades práticas, raciocínio clínico, capacidade de comunicação e atitudes éticas em um ambiente controlado e padronizado. Essa etapa é vital para garantir que o médico não apenas sabe a teoria, mas consegue aplicá-la de forma segura e eficaz no atendimento ao paciente.

O Modelo Canadense como Referência Internacional

A busca por um padrão de excelência levou o CFM a olhar para sistemas consolidados internacionalmente, como o do Canadá. O sistema canadense é conhecido por sua rigorosidade e por exigir exames avaliativos em múltiplas etapas: um exame após a graduação e outro após a residência médica para que o profissional obtenha sua licença plena para atuação. Esse processo contrasta significativamente com o modelo brasileiro atual, onde o registro médico é concedido de forma vitalícia logo após a conclusão da faculdade, sem uma verificação posterior de competências práticas para a atuação independente.

No Canadá, o processo inclui uma segunda fase avaliativa aplicada após a formação, com um foco prático e na aferição da capacidade clínica dos profissionais. Este modelo garante que ninguém pratique a medicina de forma independente sem a devida residência e certificação, conferindo maior segurança à população e maior controle sobre a qualidade dos serviços médicos prestados. Essa diferença fundamental ressalta a importância do intercâmbio de experiências, onde o Brasil pode aprender e adaptar as melhores práticas para a sua realidade.

A Parceria com o Royal College: Credibilidade e Independência

A parceria com o Royal College of Physicians and Surgeons do Canadá é estratégica para o sucesso do ProfiMed. A diretoria do CFM reforçou a importância do suporte técnico do Royal College na elaboração da matriz de competências e no desenvolvimento dos testes. A experiência canadense, onde o sistema é estritamente regulado pelo governo e por instituições renomadas, oferece um valioso know-how para o desenho de um exame robusto e imparcial.

Tai Telesco, líder de Sistemas de Saúde e Parcerias Internacionais do Royal College, destacou o espírito colaborativo da iniciativa. “No Canadá, sabemos que não temos todas as respostas, mas temos muita vivência para compartilhar e esperamos trocar conhecimentos para apoiar a melhoria da educação médica em todo o mundo. Atualmente, o Royal College possui parcerias com cerca de 30 países, incluindo muitos na América Latina, como o próprio Brasil”, afirmou Telesco, enfatizando a troca mútua de conhecimentos. Essa perspectiva global é fundamental para a construção de um exame que seja tanto adaptado à realidade brasileira quanto alinhado aos padrões internacionais de qualidade.

Mauro Ribeiro, diretor tesoureiro do CFM, sublinhou a necessidade de proteger o ProfiMed de interferências externas, garantindo que a avaliação reflita a realidade da prática médica de excelência. “O intercâmbio com instituições de renome como o Royal College garante que o ProfiMed nasça com independência técnica e credibilidade internacional. O exame deve ser a referência de que o médico possui o mínimo de competência para exercer a profissão com ética e segurança em qualquer cenário”, ressaltou Ribeiro. Essa declaração reforça o compromisso do CFM em assegurar que o ProfiMed seja uma ferramenta confiável e justa, capaz de distinguir os profissionais aptos a cuidar da saúde da população com responsabilidade e alta performance.

A implementação do ProfiMed, com o apoio e a experiência do Royal College do Canadá, representa um marco significativo na busca por uma formação médica mais qualificada e pela segurança dos pacientes no Brasil. Ao alinhar seus processos avaliativos com padrões internacionais, o país avança em direção a um futuro onde a excelência na medicina seja uma constante. Para continuar acompanhando os desdobramentos dessa e de outras iniciativas relevantes para a sua saúde e bem-estar, fique ligado no Renova Receita, seu portal de informações atualizadas e confiáveis para o dia a dia.

Fonte: https://portal.cfm.org.br