O diabetes é uma doença crônica que, se não for bem controlada, pode trazer complicações graves, impactando drasticamente a qualidade de vida. Uma das mais severas é o pé diabético, uma condição que, infelizmente, leva a um grande número de amputações e mortes em todo o mundo. A cada 20 segundos, uma pessoa sofre a amputação de um membro inferior devido a essa complicação. No Brasil, o cenário não é diferente, e a urgência do problema levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a realizar um fórum nacional para debater e propor soluções.

A gravidade do pé diabético é tal que a taxa de mortalidade em cinco anos para pessoas com Úlcera do Pé Diabético (UPD) é superior à de alguns tipos de câncer, como os de mama, próstata e colorretal. Esse dado, por si só, já revela a necessidade premente de atenção, prevenção e tratamento eficazes. O I Fórum Nacional de Pé Diabético do CFM reuniu especialistas para discutir estratégias de prevenção, diagnóstico precoce, avanços no tratamento e o fortalecimento da assistência médica, visando mudar essa realidade alarmante.

O que é o Pé Diabético e por que ele é tão perigoso?

O pé diabético é uma complicação decorrente de anos de níveis elevados de açúcar no sangue. Esse descontrole glicêmico danifica os nervos (neuropatia periférica) e os vasos sanguíneos (doença arterial periférica), especialmente nas extremidades do corpo, como os pés. A neuropatia faz com que o paciente perca a sensibilidade, tornando-o incapaz de perceber feridas, calos ou bolhas que, em pessoas sem diabetes, causariam dor e seriam notadas imediatamente.

Paralelamente, a má circulação dificulta a chegada de oxigênio e nutrientes essenciais para a cicatrização. Assim, uma pequena lesão, que para outros seria inofensiva, pode evoluir rapidamente para uma úlcera crônica e, em muitos casos, infeccionar. Sem o tratamento adequado e rápido, essas infecções podem se espalhar para os ossos e tecidos mais profundos, tornando a amputação a única alternativa para salvar a vida do paciente, evitando a septicemia (infecção generalizada).

A Preocupante Realidade Brasileira

Os números no Brasil são um reflexo dessa urgência. Com cerca de 20 milhões de pessoas convivendo com diabetes, estima-se que 30% delas desenvolverão uma úlcera no pé diabético ao longo da vida, o que representa 6 milhões de indivíduos. Desses, alarmantes 20% podem precisar de uma amputação, totalizando 1,2 milhão de pessoas. Mais chocante ainda, 10% desses pacientes morrem no primeiro ano após o diagnóstico da úlcera, um total de 120 mil óbitos anualmente. Esses dados reforçam a dimensão do problema como uma grave questão de saúde pública, com impacto direto na vida dos pacientes e nos custos do sistema de saúde.

O presidente do CFM, José Hiran Gallo, destacou que o diabetes é uma das doenças crônicas que mais crescem, impulsionada por mudanças nos hábitos de vida e, em áreas mais vulneráveis do País, pela dificuldade de acesso aos serviços de saúde. A ausência de assistência médica adequada favorece a progressão descontrolada da doença, culminando em consequências drásticas como cegueira, amputações e, infelizmente, mortes. O conselheiro federal Antônio Carlos Sanches reforça que o enfrentamento desse cenário exige uma atuação integrada de diversas especialidades médicas.

Propostas e Desafios para um Futuro Melhor

Ao final do Fórum, o CFM apresentou propostas concretas para aprimorar o cuidado com os pacientes. Entre elas, destacam-se a ampliação da informação e conscientização sobre o pé diabético, não só para os pacientes, mas para toda a população e profissionais de saúde. É fundamental reconhecer a elevada morbimortalidade associada à condição e organizar a rede de atendimento, a regulação e a assistência para garantir um fluxo de cuidado eficiente.

Outros pontos cruciais incluem assegurar o acesso a terapias convencionais e condições adequadas de tratamento, ao mesmo tempo em que se avalia com rigor as terapias promissoras e experimentais. Também é essencial delimitar o ato médico e as responsabilidades profissionais para garantir a segurança e a qualidade do atendimento. A necessidade de fortalecer programas de educação, capacitação de profissionais e prevenção do diabetes e suas complicações foi uma unanimidade entre os especialistas.

Um desafio significativo apontado é a questão das longas internações. Embora a atenção domiciliar possa parecer uma alternativa para quadros menos graves, muitos pacientes chegam aos serviços de saúde em estágios avançados, com comprometimentos renais, cardíacos e oftalmológicos, tornando essa opção inviável. Além disso, há uma preocupação com os índices elevados de suicídio entre esses pacientes, destacando a importância de um olhar integral, que inclua o suporte psicológico e social.

Como Prevenir o Pé Diabético no Dia a Dia?

A prevenção é a ferramenta mais poderosa contra o pé diabético. Para quem tem diabetes, algumas práticas são essenciais:

Controle Glicêmico Rigoroso

Manter os níveis de açúcar no sangue sob controle é o primeiro e mais importante passo para evitar as complicações da doença, incluindo a neuropatia e a má circulação.

Inspeção Diária dos Pés

Verifique os pés todos os dias, buscando feridas, bolhas, calos, inchaços, vermelhidão ou qualquer alteração. Use um espelho para ver a planta dos pés, se necessário. Se encontrar algo, procure um médico imediatamente.

Higiene Adequada

Lave os pés diariamente com água morna e sabão neutro, secando-os cuidadosamente, principalmente entre os dedos, para evitar micoses. Hidrate a pele para prevenir rachaduras, mas evite aplicar creme entre os dedos.

Calçados Apropriados

Use sapatos confortáveis, fechados, macios e que não apertem. Evite saltos altos, bicos finos e sandálias que exponham muito os pés. Sempre inspecione o interior dos sapatos antes de calçá-los para verificar se não há objetos estranhos.

Nunca Ande Descalço

Mesmo em casa, use meias e chinelos para proteger os pés de lesões acidentais.

Consultas Regulares

Visite regularmente o médico endocrinologista e, se necessário, um podólogo para avaliação e cuidados específicos com os pés. O acompanhamento profissional é vital para a detecção precoce de qualquer problema.

O pé diabético é um desafio complexo, mas a união de esforços entre profissionais de saúde, gestores e a própria população com diabetes pode reverter o panorama atual. A implementação de uma linha nacional de cuidado para padronizar condutas e organizar o fluxo assistencial é uma das esperanças para reduzir as amputações e melhorar a qualidade de vida. Com informação, prevenção e tratamento adequado, é possível evitar as consequências mais graves dessa complicação.

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Fonte: https://portal.cfm.org.br