Entre os dias 16 e 19 de setembro, Manaus (AM) sediou o 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, um evento de grande relevância organizado pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Este encontro reuniu especialistas e profissionais de diversas áreas para debater os complexos desafios que a saúde enfrenta na atualidade. A Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), representada por Isadora Vianna e Eli Hywyxy Baniwa, teve um papel ativo nas discussões, reforçando a importância de uma visão ampla e integrada sobre o bem-estar da população.

O congresso vai além da perspectiva puramente biomédica, ao buscar fortalecer estudos e experiências que conectam saúde a questões sociais e ambientais. Seu objetivo é valorizar a diversidade de abordagens e promover uma maior integração entre saúde, meio ambiente e cultura, temas que se entrelaçam diretamente com a qualidade de vida de todos nós. Entender essas conexões é fundamental para enfrentar os problemas de saúde contemporâneos de maneira mais eficaz e sustentável.

A amplitude das Ciências Sociais e Humanas em Saúde

As Ciências Sociais e Humanas em Saúde representam um campo de conhecimento que investiga como fatores culturais, sociais, econômicos e políticos influenciam a saúde e a doença nas comunidades. Longe de serem meras abstrações acadêmicas, essas ciências nos ajudam a compreender por que certas doenças afetam mais alguns grupos, como o acesso a serviços de saúde é desigual e de que forma nossas crenças e hábitos impactam diretamente no nosso bem-estar. Para o dia a dia do cidadão, isso significa entender que a saúde não depende apenas de remédios ou consultas médicas, mas também das condições em que vivemos, trabalhamos e nos relacionamos.

Neste contexto, o congresso da Abrasco em Manaus assumiu um simbolismo especial. A capital amazonense, inserida em um dos biomas mais ricos e vulneráveis do planeta, é um palco privilegiado para debater a intersecção entre saúde, meio ambiente e as particularidades culturais de populações como as indígenas e ribeirinhas. Ali, as consequências das mudanças climáticas e dos desafios sociais são sentidas de forma ainda mais intensa, tornando as discussões sobre soluções práticas urgentes e necessárias.

Os debates centrais: ambiente, clima e bem-estar coletivo

Um dos pontos altos da programação científica foi o talk show “Prevenção dos riscos do El Niño para a saúde suplementar”, que contou com a participação das representantes da SBMFC, Isadora Vianna e Eli Hywyxy Baniwa. Isadora, diretora de Desenvolvimento Profissional Contínuo e co-coordenadora do Grupo de Trabalho de Saúde Planetária da SBMFC, e Eli, diretora de Medicina Rural da entidade, trouxeram a perspectiva da atenção primária e da Medicina de Família e Comunidade para o debate. Elas foram acompanhadas por Lívia Frutuoso e Priscila Reis, do Ministério da Saúde, e a atividade foi moderada por Vanessa Carvalho, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), evidenciando a pluralidade de visões.

Entendendo o El Niño e seus impactos na saúde

O fenômeno <b>El Niño</b>, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, tem desdobramentos climáticos globais, resultando em eventos extremos como secas prolongadas, inundações intensas e ondas de calor. No Brasil, esses impactos são sentidos de diversas formas, desde a alteração dos regimes de chuva até a elevação das temperaturas. Para a saúde da população, as consequências são diretas e preocupantes. Por exemplo, a mudança nos padrões climáticos pode favorecer a proliferação de mosquitos transmissores de doenças, como o <i>Aedes aegypti</i>, intensificando a incidência de arboviroses como <b>dengue, zika e chikungunya</b>.

Além das arboviroses, os extremos climáticos gerados pelo El Niño podem impactar a saúde de outras maneiras. Secas prolongadas comprometem a segurança hídrica e alimentar, levando a problemas nutricionais e doenças de veiculação hídrica. Inundações podem destruir moradias, desalojar famílias e aumentar o risco de leptospirose e outras infecções. Ondas de calor extremo elevam a incidência de problemas respiratórios e cardiovasculares, especialmente em idosos e crianças. O debate enfatizou a urgência de articulação entre diferentes setores da sociedade para prevenir esses riscos e mitigar suas consequências, tanto na saúde pública quanto na saúde suplementar.

Atenção Primária à Saúde: a linha de frente contra os desafios climáticos

A discussão no congresso ressaltou a importância estratégica da <b>Atenção Primária à Saúde (APS)</b> na mitigação dos impactos dos eventos associados ao El Niño. As unidades básicas de saúde e os profissionais da Medicina de Família e Comunidade são a porta de entrada do sistema de saúde, atuando diretamente nas comunidades. Eles têm um papel crucial na identificação precoce de problemas, na educação sanitária da população sobre medidas preventivas (como a eliminação de focos do mosquito da dengue) e na coordenação do cuidado, especialmente em cenários de crise.

A SBMFC, por meio de seus representantes, trouxe a visão de que a Medicina de Família e Comunidade é fundamental para abordar a saúde de forma integral, considerando não apenas a doença, mas também o contexto social e ambiental do paciente. Essa abordagem se alinha diretamente com o conceito de <b>Saúde Planetária</b>, que reconhece a interconexão profunda entre a saúde humana e a saúde dos ecossistemas naturais. Cuidar do meio ambiente, portanto, é cuidar da nossa própria saúde e da saúde das futuras gerações.

Vulnerabilidades e a responsabilidade coletiva

O encontro também abordou as consequências específicas do El Niño para populações mais vulneráveis, como as <b>indígenas e rurais</b>. Estes grupos, muitas vezes com acesso limitado a serviços e com forte dependência dos recursos naturais, são os primeiros a sentir os efeitos das mudanças climáticas. A perda de lavouras, a escassez de água e o aumento de doenças representam ameaças existenciais para sua subsistência e cultura.

A pauta se estendeu para a discussão do papel da sociedade civil, dos conselhos de saúde e da responsabilidade individual com o meio ambiente. Essas entidades e cada cidadão têm um papel vital na defesa de políticas públicas que protejam o ambiente e na adoção de práticas sustentáveis no dia a dia. Desde a redução do consumo até a participação em discussões comunitárias, cada ação contribui para um futuro mais saudável e resiliente frente aos desafios climáticos. O congresso reforçou que a saúde é uma responsabilidade coletiva, exigindo um diálogo constante e a colaboração entre diferentes áreas do conhecimento e esferas da sociedade.

A participação ativa da SBMFC no 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde sublinha a importância de uma medicina que se expande para além do consultório, considerando o indivíduo em seu ecossistema. Ao integrar temas como saúde planetária e mudanças climáticas nas discussões centrais, a entidade contribui para a construção de estratégias de cuidado que são mais completas e efetivas. Este tipo de debate é crucial para que possamos desenvolver soluções que realmente melhorem a qualidade de vida e o bem-estar da população diante dos complexos desafios que se apresentam.

Compreender como a saúde se conecta a questões sociais e ambientais é um passo fundamental para um futuro mais saudável para todos. Para continuar recebendo informações relevantes, práticas e atualizadas sobre saúde, bem-estar e temas que impactam diretamente seu cotidiano, acompanhe o Renova Receita. Nosso portal está sempre em busca de conteúdos variados e informações confiáveis para você e sua família.

Fonte: https://sbmfc.org.br