A perda de vidas femininas durante a gestação ou nos primeiros 42 dias após o parto ainda é uma triste realidade no Brasil. Anualmente, centenas de mulheres brasileiras morrem devido a causas relacionadas ou agravadas pela gravidez e pelo puerpério. Essa situação alarmante não apenas representa uma tragédia individual e familiar, mas também reflete desafios persistentes no sistema de saúde e na sociedade como um todo.

Os dados mais recentes, de 2024, indicam que a razão de mortalidade materna no país é de 56,4 a cada 100 mil nascidos vivos. Isso se traduz em um registro de 1.347 óbitos apenas neste ano, conforme informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM-Datasus), consultados no Observatório da Saúde Pública. Embora a meta nacional seja reduzir esse número para 30 mortes por 100 mil nascidos vivos até 2030, o caminho para alcançar esse objetivo ainda exige esforços intensificados e coordenados. A boa notícia, destacada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), é que a vasta maioria dessas mortes – cerca de nove em cada dez – é completamente evitável.

O que é mortalidade materna e por que ela importa?

Mortalidade materna é definida como o óbito de uma mulher durante a gravidez ou em até 42 dias após o término dela, independentemente da duração e do local da gestação, por qualquer causa relacionada ou agravada pela própria gravidez ou por suas medidas de manejo, mas não por causas acidentais ou incidentais. Compreender essa definição é o primeiro passo para dimensionar o problema e a urgência de combatê-lo.

Mais do que um dado estatístico, a mortalidade materna é um indicador crucial da qualidade dos serviços de saúde e do grau de desenvolvimento social de um país. Ela reflete o acesso e a eficácia do pré-natal, do parto e do pós-parto, além de expor as desigualdades sociais e regionais que impactam a saúde das mulheres. Para o leitor, compreender a seriedade deste tema é fundamental, pois ele afeta diretamente a vida de milhares de famílias e comunidades, evidenciando a necessidade de atenção contínua e integral à saúde da mulher em todas as suas fases reprodutivas e para além delas.

As principais causas e a importância da prevenção

No Brasil, as causas obstétricas diretas são responsáveis por cerca de 66% das mortes maternas. Entre elas, as quatro principais vilãs que mais tiram a vida de gestantes e puérperas são as síndromes hipertensivas (como a pré-eclâmpsia e a eclâmpsia), as hemorragias (principalmente no pós-parto), as infecções puerperais e as complicações decorrentes de abortos inseguros. Conhecer essas causas é essencial para direcionar as ações de prevenção e tratamento.

A prevenção, como apontam os especialistas, começa muito antes do parto, com um pré-natal bem feito e iniciado o mais precocemente possível. A Dra. Maria Isabel Peixoto, chefe da Unidade da Saúde da Mulher da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), enfatiza a importância de um acompanhamento completo para identificar e gerenciar riscos. Um pré-natal de qualidade significa mais do que apenas consultas: envolve exames regulares, orientação nutricional adequada, vacinação, monitoramento da saúde mental e, principalmente, a criação de um vínculo de confiança entre a gestante e a equipe de saúde, preparando a mulher para um desfecho favorável tanto no parto quanto na recuperação.

Esse cuidado se intensifica em gestações de alto risco. Casos como o de Fernanda Lopes de Almeida, de 41 anos, técnica de enfermagem e paciente da Maternidade Escola da UFRJ, ilustram a relevância do cuidado especializado. Grávida de 18 semanas, Fernanda é acompanhada por um quadro de hipertensão e histórico de diabetes gestacional. Na maternidade, ela recebeu orientações sobre mudança de hábitos alimentares, realizou exames e faz um acompanhamento constante, o que a faz sentir segura. Essa atenção direcionada e a possibilidade de gerenciar condições pré-existentes ou que surgem durante a gestação são vitais para evitar complicações que poderiam ser fatais e para garantir uma jornada mais tranquila para a futura mãe.

O papel da equipe multiprofissional e do SUS

A segurança e o bem-estar da gestante e do bebê dependem de uma equipe diversificada e integrada. O enfermeiro obstétrico Renné Costa, membro do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), destaca a importância da multidisciplinaridade. Médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, cada um em sua área de expertise, trabalham em conjunto, centrados no objetivo comum de garantir o melhor atendimento à mãe e ao bebê. Essa abordagem colaborativa assegura uma visão holística da saúde da mulher, abordando não apenas os aspectos clínicos, mas também os sociais e emocionais.

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido palco de experiências notáveis que comprovam a eficácia da atuação multiprofissional. Renné Costa, com mais de 5 mil partos realizados desde 2009, a maioria no Hospital Municipal de Viçosa, em Alagoas, é um exemplo inspirador. Ele relata que, após sua chegada, o número de partos na unidade saltou de 80-90 para 600 por ano. Essa expansão foi atribuída à autonomia concedida à enfermagem obstétrica, amparada pela Lei 7.498 de 1986, que regulamenta o exercício profissional da enfermagem. Experiências como a de Viçosa, que se tornou referência para nove municípios alagoanos, demonstram como o investimento na formação e autonomia de profissionais qualificados pode transformar a realidade da saúde materna, garantindo mais acesso e melhores resultados.

O cuidado no pós-parto: fase crucial para a recuperação

Após o nascimento do bebê, a fase conhecida como puerpério, que se estende por até 42 dias, é tão crítica quanto a gestação em termos de risco para a mortalidade materna. A ginecologista e obstetra Inessa Beraldo de Andrade Bonomi, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Gestação de Alto Risco da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), ressalta a importância deste período que, muitas vezes, é subestimado.

É nesse momento que a mulher passa por intensas mudanças físicas e hormonais, sendo vulnerável a complicações como hemorragias tardias, infecções, problemas hipertensivos e até mesmo questões de saúde mental, como a depressão pós-parto. O acompanhamento contínuo no puerpério, as consultas de revisão e o suporte emocional são elementos essenciais para uma recuperação plena, para a identificação precoce de qualquer problema e para a prevenção de óbitos nesse período tão delicado da vida da mulher.

Ações e metas para o futuro da saúde materna

O Brasil, ciente da gravidade da situação, tem buscado implementar e fortalecer estratégias para reverter o quadro da mortalidade materna. Iniciativas como a do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), que visa auxiliar 75 maternidades em todo o país a reduzirem seus índices de mortalidade materna, e a meta do governo de diminuir em 25% as mortes até 2027, são passos importantes nessa direção.

O Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, celebrado em 28 de maio, serve como um lembrete anual da urgência e da importância de ações integradas para a saúde feminina. É um momento para reforçar direitos e a integralidade do cuidado, desde o planejamento familiar até o pós-parto, garantindo que as mulheres recebam a atenção que merecem. A luta contra a mortalidade materna é um esforço contínuo que envolve políticas públicas eficazes, investimento em infraestrutura, capacitação profissional e, acima de tudo, a conscientização de que cada vida importa e pode ser salva.

Em suma, a mortalidade materna no Brasil é um desafio complexo, mas amplamente evitável. Através de um pré-natal de qualidade, atendimento multiprofissional e cuidado atento no pós-parto, é possível proteger as mães e garantir um futuro mais saudável para as famílias brasileiras. Para mais informações relevantes e atualizadas sobre saúde, bem-estar e temas que impactam seu dia a dia, continue acompanhando o Renova Receita. Nosso compromisso é trazer conteúdo confiável para você e sua família.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br