Neste domingo, uma série de atividades e mobilizações em diversas cidades brasileiras trouxe à tona a importância de discutir a fibromialgia, uma síndrome crônica que afeta milhões de pessoas. O objetivo principal desses encontros é conscientizar a população sobre a natureza da doença e, sobretudo, cobrar das autoridades ações efetivas para garantir os direitos e um tratamento adequado no Sistema Único de Saúde (SUS). Em Brasília, por exemplo, o Parque da Cidade sediou um evento que ofereceu desde sessões de acupuntura e liberação miofascial até orientações sobre fisioterapia, abordagens psicológicas e rodas de conversa, demonstrando a necessidade de um suporte amplo e multidisciplinar.
O que é a fibromialgia? Entendendo a síndrome crônica
A fibromialgia é uma condição de saúde complexa, caracterizada principalmente por dores musculares e articulares difusas, que se manifestam em várias partes do corpo. Essa dor persistente é frequentemente acompanhada de uma fadiga intensa e debilitante, distúrbios do sono, dificuldade de concentração — conhecida como “névoa mental” — e alterações de humor. Embora não cause inflamações visíveis ou deformações físicas, seu impacto na qualidade de vida dos pacientes é profundo, dificultando tarefas cotidianas, o desenvolvimento profissional e as interações sociais.
A síndrome é mais comum em mulheres, especialmente entre 30 e 60 anos, mas pode atingir pessoas de qualquer idade ou gênero, incluindo crianças e idosos. As causas exatas ainda não são totalmente compreendidas pela ciência, mas especialistas apontam uma relação com alterações no funcionamento do sistema nervoso central. Isso significa que, para quem tem fibromialgia, o cérebro amplifica a percepção da dor, tornando estímulos que seriam normais para outras pessoas em sensações dolorosas insuportáveis.
Diversos fatores podem contribuir para o surgimento da condição, como estresse prolongado, traumas físicos ou emocionais, quadros de ansiedade e depressão, e até mesmo uma predisposição genética. Compreender essa complexidade é o primeiro passo para buscar o diagnóstico e o tratamento adequados, que permitam ao paciente ter um manejo eficaz dos sintomas.
Sintomas que impactam o dia a dia
Os sintomas da fibromialgia vão além da dor. Além das dores persistentes por mais de três meses e da sensibilidade ao toque em diversos pontos do corpo, a sensação constante de cansaço, que não melhora com o repouso, e o sono não reparador são queixas frequentes. A rigidez muscular, especialmente ao acordar, também pode dificultar o início das atividades diárias. A “névoa mental” manifesta-se como problemas de memória e atenção, tornando simples tarefas cognitivas um desafio.
Outros sintomas comuns incluem dores de cabeça crônicas, síndrome do intestino irritável, e uma maior sensibilidade a ruídos, luzes e variações de temperatura. Essa multiplicidade de sintomas torna o diagnóstico da fibromialgia um processo clínico, baseado na avaliação detalhada do médico, que deve excluir outras doenças com manifestações semelhantes para confirmar a síndrome. A complexidade do quadro ressalta a importância de um olhar atento e especializado por parte dos profissionais de saúde.
A luta por reconhecimento e direitos no Brasil
A fibromialgia, por não apresentar sinais visíveis, muitas vezes é incompreendida, e os pacientes enfrentam o desafio de validar sua dor e suas limitações. Ana Dantas, servidora pública e uma das organizadoras da mobilização nacional, ressalta essa dificuldade: “É uma doença que não é visível, ela existe no nosso corpo, mas ninguém vê”. Essa invisibilidade social e a falta de conhecimento sobre a síndrome contribuem para a estigmatização e para a dificuldade de acesso a direitos e tratamentos.
Felizmente, nos últimos anos, houve um avanço importante no Brasil. Uma lei federal de 2023 estabeleceu diretrizes para o atendimento de pessoas com fibromialgia no SUS. A legislação é um marco, pois prevê atendimento multidisciplinar, incentivo à divulgação de informações sobre a doença e estímulo à capacitação de profissionais de saúde. Contudo, apesar do progresso legislativo, a realidade ainda mostra um caminho a ser percorrido, pois o acesso efetivo ao diagnóstico e ao tratamento especializado pelo SUS ainda é um desafio para muitos.
A legislação também trouxe um reconhecimento crucial: o enquadramento legal que garante às pessoas com fibromialgia os mesmos direitos concedidos à Pessoa com Deficiência (PcD). Para ter acesso a esses direitos, como auxílio por incapacidade temporária (o antigo auxílio-doença), aposentadoria por invalidez e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), é necessária a aprovação em uma avaliação biopsicossocial. Esse passo representa um avanço na garantia de proteção social, mas a necessidade da avaliação ressalta a importância de um diagnóstico claro e documentado.
A mobilização, portanto, não é apenas para informar, mas para impulsionar a aplicação prática da lei. “A nossa mobilização é no intuito de buscar políticas públicas, adequar a demanda da comunidade fibromiálgica no SUS”, acrescenta Ana Dantas. A servidora, que descobriu a doença há pouco mais de um ano, exemplifica as limitações: “Coisas que a gente fazia em 20 minutos se gasta umas três ou quatro horas para poder finalizar. É tudo muito lento, tem a questão do esquecimento, a gente esquece as coisas fácil, além da dor que é em todo o corpo.” Histórias como a de Ana evidenciam a urgência de uma resposta mais eficaz do sistema de saúde e da sociedade.
Caminhos para o tratamento e a gestão da qualidade de vida
O tratamento da fibromialgia é complexo e, idealmente, deve ser multidisciplinar, envolvendo diversas abordagens para gerenciar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. Medicamentos podem ser prescritos para controlar a dor, melhorar a qualidade do sono e tratar condições associadas, como ansiedade e depressão. No entanto, a medicação é apenas uma parte da solução.
Exercícios físicos regulares são considerados um dos pilares mais importantes do tratamento. Atividades de baixo impacto como caminhadas, hidroginástica, alongamentos e yoga, por exemplo, ajudam a reduzir a dor, melhorar a flexibilidade, combater a fadiga e promover o bem-estar mental. Além disso, terapias psicológicas, como a terapia cognitivo-comportamental, fisioterapia, técnicas de relaxamento e mudanças no estilo de vida são estratégias recomendadas que ensinam os pacientes a lidar com a dor e a gerenciar o estresse, fatores que frequentemente exacerbam os sintomas.
A psicóloga Mariana destaca a importância da psicoeducação. “Nesse processo de abordagem da doença a gente desenvolve a consciência sobre tudo o que envolve essa condição, as limitações. Porque afeta a autoestima de muitas mulheres, justamente porque elas ficam muito limitadas, então é muito importante saber como lidar e receber acolhimento”. Embora a fibromialgia não tenha uma cura definitiva, ela pode ser controlada. Com o tratamento adequado e um bom suporte, muitos pacientes conseguem manter uma rotina ativa e recuperar significativamente sua qualidade de vida, integrando-se plenamente à sociedade e ao mercado de trabalho.
A mobilização por direitos e tratamento da fibromialgia é um reflexo da necessidade de atenção e acolhimento para uma condição que, embora invisível, impacta profundamente a vida de milhões de brasileiros. O avanço da legislação é um passo, mas o compromisso contínuo com a conscientização, o diagnóstico precoce e a oferta de tratamentos eficazes no SUS são essenciais para garantir que todos os pacientes tenham acesso à qualidade de vida que merecem. Continue acompanhando o Renova Receita para acessar conteúdos variados e informações confiáveis sobre saúde, bem-estar e direitos, que fazem a diferença no seu dia a dia.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br
