A qualidade dos serviços de saúde que chegam à população está diretamente ligada à valorização dos profissionais que os oferecem. Pensando nisso, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) deu um passo importante ao promover a primeira oficina de sua Jornada Nacional, focada na valorização da Medicina de Família e Comunidade (MFC) e na busca por melhores condições de trabalho na Atenção Primária à Saúde (APS). Este movimento reflete uma preocupação crescente com a estrutura e o reconhecimento de uma especialidade que é essencial para o bom funcionamento do sistema de saúde em todo o país.

O encontro inicial, realizado online, reuniu mais de quarenta médicos e médicas de família e comunidade de diversas regiões brasileiras. O objetivo principal foi colocar em pauta os desafios diários da profissão e, a partir dessas discussões, começar a construir propostas concretas. Essas ideias vão subsidiar um documento nacional de recomendações, visando aprimorar tanto o ambiente de trabalho desses profissionais quanto a qualidade da atenção que eles prestam à comunidade.

A importância da Medicina de Família e Comunidade no dia a dia da saúde

Para entender a relevância dessa jornada, é fundamental compreender o papel da Medicina de Família e Comunidade e da Atenção Primária à Saúde. A APS é a porta de entrada preferencial para o sistema de saúde, sendo responsável por cerca de 80% das necessidades de saúde da população. É nela que se desenvolvem ações de prevenção de doenças, promoção da saúde, diagnóstico precoce e tratamento de condições comuns, além do acompanhamento de pacientes crônicos e gestantes. O médico de família e comunidade, por sua vez, é o profissional capacitado para oferecer um cuidado integral, contínuo e coordenado, atendendo indivíduos de todas as idades, em seu contexto familiar e comunitário. Eles são o ponto de referência para a saúde de uma família, conhecendo seu histórico e suas necessidades ao longo do tempo.

A presença de médicos de MFC bem capacitados e com boas condições de trabalho na APS significa um atendimento mais humano, eficiente e resolutivo. Isso se traduz em menos internações desnecessárias, melhor controle de doenças crônicas, maior adesão a tratamentos e, em última instância, uma população mais saudável. Quando há problemas nesse elo fundamental da saúde, toda a cadeia de atendimento sofre, impactando diretamente o acesso e a qualidade dos serviços para o cidadão.

Desafios em debate: um panorama nacional

Apesar das particularidades de cada estado e município, os relatos colhidos durante a oficina evidenciaram que muitos desafios são compartilhados. Entre as preocupações mais frequentes estão a baixa valorização profissional, as condições de trabalho muitas vezes precárias e as deficiências na organização da própria Atenção Primária à Saúde. Fabiano Guimarães, presidente da SBMFC, reforçou que, embora algumas dificuldades sejam vistas globalmente, o Brasil tem suas especificidades que exigem um olhar atento e soluções construídas coletivamente.

Realidades locais que se conectam

Representantes de diferentes estados trouxeram exemplos vívidos das dificuldades. No Rio de Janeiro, a realidade da MFC é marcada pela violência nos territórios, pelo excesso de burocracia, por relações complicadas com a gestão municipal, problemas no acesso à atenção secundária (especialistas e exames) e pela ausência de reajustes salariais há anos. Em Florianópolis, apesar de uma rede de APS consolidada, a alta rotatividade de médicos de família é um problema, impulsionada principalmente por diferenças salariais em relação a cidades vizinhas e pela sobrecarga de trabalho. Também foi debatida a questão dos programas de provimento e a precarização dos vínculos de trabalho, que afetam a estabilidade e a qualidade do serviço prestado.

Esses exemplos mostram como a instabilidade e a desvalorização podem prejudicar a continuidade do cuidado. Um médico que não tem um plano de carreira claro, que enfrenta salários defasados ou um ambiente de trabalho desorganizado, tende a buscar outras oportunidades. Essa rotatividade, por sua vez, impacta diretamente a relação de confiança entre médico e paciente, essencial para a Medicina de Família e Comunidade, e descontinua o acompanhamento de saúde da população.

Construindo propostas para o futuro da APS

A Jornada nasceu da percepção coletiva de que as condições de trabalho afetam todos os médicos de família e comunidade no país. A partir dessa reflexão, a SBMFC decidiu elaborar um documento que organize as principais demandas e propostas para aprimorar o cenário da MFC na APS. A oficina foi um espaço para identificar e aprofundar esses pontos.

Após as apresentações e o painel de discussões, os participantes foram divididos em grupos de trabalho para debater temas cruciais. Entre os problemas identificados, destacam-se a precarização dos vínculos empregatícios, a ausência de planos de carreira definidos, a desvalorização profissional em termos de reconhecimento e remuneração, a sobrecarga de atendimentos, as dificuldades de acesso à atenção especializada, problemas de regulação (que atrasam o encaminhamento de pacientes) e a remuneração inadequada, além de questões ligadas à carga horária excessiva.

Ao final da atividade, uma síntese das contribuições dos grupos foi apresentada, organizando os debates em dez grandes eixos temáticos. Isso demonstra a riqueza das discussões e o empenho em transformar os desafios em propostas concretas para o fortalecimento da especialidade e, consequentemente, da saúde pública brasileira. As próximas etapas da jornada incluirão oficinas presenciais em congressos regionais, aprofundando o debate e mobilizando ainda mais profissionais para que o documento final seja um retrato fiel das necessidades e um guia para as melhorias desejadas.

A valorização da Medicina de Família e Comunidade e a melhoria das condições de trabalho na Atenção Primária são investimentos diretos na saúde de cada cidadão e no futuro do sistema de saúde do Brasil. A iniciativa da SBMFC é um passo fundamental para que a voz desses profissionais seja ouvida e suas necessidades, atendidas, resultando em um impacto positivo na qualidade de vida da população. Para continuar acompanhando debates importantes como este e ter acesso a conteúdos variados e informações confiáveis sobre saúde e bem-estar, fique ligado no Renova Receita.

Fonte: https://sbmfc.org.br