A malária continua sendo uma das doenças tropicais mais devastadoras do mundo, ameaçando bilhões de pessoas e causando centenas de milhares de mortes anualmente, especialmente em regiões de baixa e média renda. No Brasil, embora controlada em algumas áreas, a doença persiste com força na região amazônica, impondo um desafio constante à saúde pública. Um dos maiores obstáculos no combate à malária é a crescente resistência do parasita aos medicamentos existentes, o que torna a busca por novas terapias uma corrida contra o tempo e uma prioridade para a saúde global.

Um avanço crucial da Fiocruz na luta contra a malária

Um avanço notável nessa batalha vem da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), uma das mais importantes instituições de ciência e tecnologia em saúde da América Latina. Recentemente, a Fiocruz obteve a patente de um método de tratamento que utiliza um composto promissor para combater a malária, particularmente eficaz contra as cepas que desenvolveram resistência aos tratamentos convencionais. A patente, concedida pelo United States Patent and Trademark Office (USPTO), reconhece o trabalho de inventores do Instituto René Rachou, uma unidade da Fiocruz localizada em Minas Gerais, reforçando a capacidade de inovação brasileira.

O composto DAQ: uma redescoberta estratégica

O cerne dessa nova abordagem terapêutica é um composto conhecido como DAQ. Apesar de sua atividade antimalárica ter sido descrita inicialmente na década de 1960, o DAQ havia sido deixado de lado nas pesquisas. No entanto, um grupo de cientistas da Fiocruz, coordenado pela pesquisadora Antoniana Krettli, decidiu retomar os estudos, utilizando as mais recentes abordagens da química e da biologia molecular. Essa revisita se mostrou decisiva, revelando o potencial inexplorado da molécula e abrindo novas perspectivas.

“Essa molécula já tinha sido descrita como promissora, mas acabou sendo deixada de lado. O nosso grupo retomou esse estudo e mostrou um mecanismo único de superar mecanismos de resistência desenvolvidos pelo parasita, ao identificar uma característica estrutural decisiva: a presença de uma ligação tripla na cadeia química”, explica Wilian Cortopassi, pesquisador colaborador da Fiocruz. Essa característica estrutural, antes ignorada ou subestimada, provou ser fundamental para a eficácia do DAQ contra as formas mais resilientes da doença.

Como o DAQ atua contra o parasita da malária

O diferencial do DAQ reside em sua capacidade de superar os mecanismos de resistência que o *Plasmodium falciparum*, o parasita responsável pelas formas mais graves da malária, desenvolveu ao longo do tempo. Ele age de forma semelhante à cloroquina, um medicamento antigo e que teve sua eficácia diminuída pela resistência, mas com uma vantagem crucial. O composto interfere em um processo vital para a sobrevivência do parasita: a digestão da hemoglobina humana, que é sua fonte de nutrientes.

Durante esse processo de digestão, o microrganismo produz substâncias tóxicas como subproduto. Naturalmente, ele possui mecanismos elaborados para neutralizar essas toxinas e evitar sua própria morte. O DAQ atua bloqueando exatamente esse mecanismo de defesa. Ao impedir que o parasita neutralize as substâncias tóxicas que ele mesmo gera, o composto leva à sua autodestruição, resultando na morte do microrganismo. Esse modo de ação “indireto”, que ataca a defesa do parasita em vez do parasita diretamente em sua fase mais resistente, é o que o torna tão promissor e difícil de ser contornado pelo agente infeccioso.

Os estudos realizados até o momento indicam uma ação rápida do composto nas fases iniciais da infecção. Além disso, a eficácia do DAQ foi demonstrada tanto contra cepas sensíveis quanto contra cepas resistentes do *Plasmodium falciparum*. Uma notícia ainda mais animadora para o contexto brasileiro é que os pesquisadores também identificaram resultados promissores contra o *Plasmodium vivax*, o tipo de parasita responsável pela maior parte dos casos de malária registrados no país, o que amplia significativamente o potencial de impacto do tratamento.

Potencial de impacto global e os desafios futuros

A descoberta da Fiocruz não é apenas uma vitória científica, mas tem um potencial impacto significativo na saúde global. Um dos pontos mais destacados pelos pesquisadores é o baixo custo potencial de produção da molécula DAQ. Este fator é estratégico e de extrema relevância para países de baixa e média renda, onde a malária permanece endêmica e o acesso a tratamentos eficazes e acessíveis é uma barreira constante. Tornar um tratamento disponível e financeiramente viável para as populações mais afetadas é um objetivo central da pesquisa em doenças tropicais, e o DAQ se alinha a essa necessidade.

As pesquisas contaram com a colaboração de diversas instituições renomadas, tanto nacionais quanto internacionais, incluindo a University of California San Francisco (UCSF), a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Essa rede de conhecimento e expertise continua a ser fortalecida, com novos estudos em andamento em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), consolidando um esforço conjunto para o avanço da ciência.

Apesar de todos os resultados serem considerados promissores, é fundamental compreender que a obtenção da patente é uma etapa importante, mas não o fim do caminho. O desenvolvimento do DAQ como um medicamento pronto para uso ainda depende de novas fases e testes rigorosos. Isso inclui estudos de toxicidade para garantir sua segurança em seres humanos, a definição de doses seguras e eficazes, e o desenvolvimento da formulação farmacêutica adequada para sua administração e estabilidade.

No entanto, a própria estrutura da Fiocruz pode acelerar essas etapas. “A instituição tem forte atuação na Amazônia, com diagnóstico e acompanhamento de pacientes, além de experiência em testes clínicos. Isso facilita parcerias e o avanço de novos medicamentos”, afirma Antoniana Krettli. A capacidade de realizar pesquisas clínicas em regiões onde a malária é prevalente é uma vantagem estratégica para testar a eficácia e segurança do DAQ no ambiente real da doença, onde as condições de campo são cruciais para a validação de um novo fármaco.

A importância de inovar em um cenário de resistência

O desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas é uma necessidade urgente e inadiável no contexto atual da malária. Os pesquisadores alertam que, embora existam tratamentos eficazes atualmente, o parasita da malária é conhecido por sua notável capacidade de evolução e por desenvolver resistência aos medicamentos ao longo do tempo. Essa capacidade adaptativa do microrganismo impõe um desafio constante aos esforços de controle da doença e exige uma postura proativa da comunidade científica e da saúde pública.

Por isso, o desenvolvimento de novas opções de tratamento não pode esperar. É uma medida preventiva essencial para evitar uma possível escassez de medicamentos eficazes no futuro, um cenário que poderia ter consequências devastadoras para a saúde pública global, revertendo anos de progresso no combate à malária. A patente do DAQ representa, assim, não apenas uma vitória científica da Fiocruz, mas um investimento crucial na saúde das gerações futuras, garantindo que a humanidade continue a ter ferramentas para lutar eficazmente contra essa doença milenar.

Esse avanço da Fiocruz demonstra a importância da pesquisa científica brasileira no cenário global da saúde, contribuindo com soluções inovadoras para desafios complexos. Manter-se informado sobre essas descobertas é fundamental para entender os rumos da medicina e os desafios que ainda temos pela frente. Para continuar acompanhando informações relevantes, práticas e atualizadas sobre saúde, bem-estar e ciência, acesse sempre o Renova Receita e confira nossos conteúdos variados e confiáveis, feitos para o seu dia a dia.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br