A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), por meio de seu Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos), dará um passo fundamental para a saúde pública brasileira: a produção nacional da cladribina oral, um medicamento de alto custo utilizado no tratamento da esclerose múltipla (EM). Essa iniciativa promete uma transformação no acesso a esse tratamento vital para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), com a expectativa de uma significativa redução nos custos de aquisição e, consequentemente, a ampliação do número de pessoas beneficiadas em todo o país. A cladribina, já incorporada ao SUS, representa uma esperança para milhares de brasileiros que convivem com a forma mais ativa da doença.

Esclerose Múltipla: Entendendo a Doença Crônica

A esclerose múltipla é uma doença neurológica crônica, inflamatória e autoimune, que afeta o cérebro e a medula espinhal, partes essenciais do sistema nervoso central. No Brasil, estima-se que mais de 30 mil pessoas vivam com a condição, sendo a forma remitente-recorrente (EMRR) a mais comum. Essa variante é caracterizada por surtos de sintomas neurológicos, que podem incluir perda de visão, fraqueza, problemas de equilíbrio e fala, intercalados por períodos de remissão, onde os sintomas diminuem ou desaparecem. Embora a doença possa ter um curso lento para alguns, em outros, ela evolui rapidamente, causando comprometimentos severos como cegueira, paralisia e declínio das funções cognitivas, impactando drasticamente a qualidade de vida. Atualmente, cerca de 3,2 mil pessoas apresentam a doença com alta atividade no país, necessitando de tratamentos mais específicos.

O Papel Essencial da Cladribina Oral no Tratamento

Conhecido comercialmente como Mavenclad, a cladribina oral é um marco no tratamento da EMRR, especialmente para pacientes com alta atividade da doença. Isso significa aqueles que, mesmo utilizando terapias de base, continuam a apresentar surtos frequentes ou uma progressão rápida da condição. O medicamento se destaca por ser o primeiro tratamento oral de curta duração a oferecer eficácia prolongada no controle da esclerose múltipla remitente-recorrente, o que o levou a ser incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa inclusão sublinha sua relevância global e seu impacto positivo na vida de muitos pacientes.

A eficácia da cladribina é amparada por estudos robustos. Resultados apresentados no 39º Congresso do Comitê Europeu para Tratamento e Investigação em Esclerose Múltipla (ECTRIMS) mostraram que pacientes tratados com o medicamento tiveram uma redução significativa da lesão neuronal em apenas dois anos de uso. Outras pesquisas apontaram que uma parcela impressionante de 81% dos pacientes conseguiu andar sem apoio, e mais da metade não necessitou de nenhuma outra medicação adicional após o tratamento. Esses dados demonstram o potencial transformador da cladribina, proporcionando maior independência e uma melhor perspectiva de vida para quem enfrenta a esclerose múltipla, além de reduzir a necessidade de intervenções contínuas.

Impacto da Produção Nacional: Mais Acesso e Economia para o SUS

A produção da cladribina pela Fiocruz representa um avanço estratégico vital para o Sistema Único de Saúde. Atualmente, o custo médio do tratamento com este medicamento, que é totalmente coberto pelo SUS, gira em torno de R$ 140 mil por paciente ao longo de cinco anos. Dada a estimativa de 3,2 mil pessoas no país que necessitam da medicação devido à alta atividade da doença, o investimento público é substancial. A fabricação nacional visa reduzir consideravelmente esses custos de aquisição, permitindo que o SUS direcione recursos para outras áreas e, crucialmente, amplie o acesso ao tratamento para mais pacientes que hoje dependem da importação do fármaco, tornando o sistema de saúde mais sustentável e resiliente.

A Força das Parcerias Estratégicas

Para tornar essa produção nacional uma realidade, a Fiocruz, através de Farmanguinhos, firmou uma parceria estratégica com a farmacêutica Merck, desenvolvedora original do Mavenclad, e a indústria químico-farmacêutica Nortec. Essa colaboração é um modelo de sucesso que une o conhecimento técnico da Fiocruz à expertise da iniciativa privada, resultando em benefícios diretos para a população. Silvia Santos, diretora de Farmanguinhos, ressalta a importância deste ser o primeiro medicamento para esclerose múltipla produzido pelo Instituto, reafirmando o compromisso com o fortalecimento do SUS e a promoção do acesso a tratamentos inovadores, produzidos em território nacional. “É um caminho importante para a transformação de políticas públicas em cuidado real para quem mais precisa”, complementa.

Farmanguinhos tem uma atuação focada em terapias de alto valor, muitas vezes voltadas para doenças negligenciadas, e esta nova frente de produção alinha-se perfeitamente à sua missão. O presidente da Fiocruz, Mario Moreira, destaca que tais parcerias fortalecem os laços tecnológicos da Fundação com seus parceiros nacionais e internacionais, ao mesmo tempo em que sublinham o valor estratégico dos laboratórios públicos brasileiros. A meta é clara: “Consolidar o Complexo Econômico e Industrial da Saúde, para garantir a sustentabilidade dos programas do SUS, gerando empregos especializados, reduzindo preços e mantendo a qualidade dos produtos”. Essa visão vai além da saúde, impulsionando a economia e a soberania tecnológica do país. Além da cladribina, a Fiocruz mantém outros dois acordos com a Merck, que incluem a produção de outra terapia para esclerose, a betainterferona 1a, e um medicamento para o tratamento da esquistossomose em crianças, evidenciando uma estratégia mais ampla de autossuficiência e inovação na saúde.

A produção nacional da cladribina oral pela Fiocruz é mais do que uma questão de logística; é um marco na saúde pública brasileira. Ela simboliza o esforço contínuo em garantir que tratamentos avançados cheguem a quem precisa, desonerando o SUS e fortalecendo a autonomia do Brasil na produção de medicamentos essenciais. Essa iniciativa reflete o compromisso de oferecer soluções eficazes e sustentáveis, impactando positivamente a vida de milhares de pacientes com esclerose múltipla e consolidando o Complexo Industrial da Saúde no país. Para se manter sempre atualizado sobre temas relevantes como este, com informações confiáveis e práticas para o seu dia a dia, continue acompanhando o Renova Receita.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. José Henrique Sandoval Gonçalves
Médico Responsável Técnico da Renova Receita | CRM 23826/DF | CRM 26277/SC
Especialista em Clínica Médica e Medicina de Família e Comunidade.
Última revisão: maio/2026Saiba mais sobre o médico responsável