O Dia Nacional de Prevenção e Controle do Colesterol, celebrado em 8 de junho, serve como um lembrete crucial da importância de cuidar da saúde cardiovascular. Especialistas na área alertam que a batalha contra o colesterol alto não deve esperar a vida adulta; ela precisa começar muito mais cedo. Investir na prevenção desde a infância é, de longe, a estratégia mais eficaz para evitar complicações cardíacas futuras, que podem impactar a qualidade de vida e a longevidade.
A importância da avaliação precoce: por que aos 10 anos?
Um estudo recente, citado pelo vice-presidente do Departamento de Aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Renato Jorge Alves, recomenda que todas as pessoas realizem a primeira dosagem de colesterol por volta dos 10 anos de idade. Essa indicação não é aleatória; ela reflete a compreensão de que muitos dos problemas de saúde que se manifestam na vida adulta têm suas raízes na infância e adolescência. A detecção precoce de níveis elevados de colesterol, tanto o LDL (conhecido como colesterol “ruim”) quanto o HDL (colesterol “bom”) e os triglicerídeos, permite a intervenção imediata. Isso pode incluir ajustes no estilo de vida, evitando que o quadro se agrave ao longo do tempo e se transforme em um fator de risco significativo para doenças cardiovasculares.
O cardiologista enfatiza que esse exame preventivo, assim como a dosagem de glicose, deveria fazer parte da rotina de saúde de toda criança. É uma forma de mapear precocemente o risco metabólico e cardíaco, dando aos pais e profissionais de saúde a chance de agir antes que o problema se torne crônico. Lidar com o colesterol elevado na infância significa reduzir drasticamente as chances de desenvolver aterosclerose – o acúmulo de placas de gordura nas artérias – nas décadas seguintes, um processo silencioso que é a principal causa de infartos e AVCs.
Impactos do colesterol elevado na saúde
O colesterol, em si, não é um inimigo. Ele é uma substância essencial para o bom funcionamento do nosso organismo, presente nas membranas celulares e na produção de hormônios. O problema surge quando seus níveis, especialmente o LDL, se elevam e o HDL está baixo, ou quando há um desequilíbrio. O colesterol alto é um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, incluindo o infarto agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC). Ele contribui para o processo de aterosclerose, onde as artérias ficam mais estreitas e rígidas devido ao acúmulo de gordura, dificultando a passagem do sangue e aumentando a pressão arterial.
Além disso, a qualidade do sono e os níveis de estresse também exercem influência direta sobre o metabolismo do colesterol e dos triglicerídeos. Noites mal dormidas e o estresse crônico podem desregular o metabolismo, favorecendo o aumento dessas gorduras e contribuindo para processos inflamatórios nas artérias, o que acelera a formação das placas de ateroma. O processo de aterosclerose, como aponta o especialista, não é apenas um acúmulo passivo de gordura, mas também um processo inflamatório complexo.
Hábitos saudáveis como pilar da prevenção
Alimentação consciente
Adotar um estilo de vida saudável é a primeira e mais importante recomendação para controlar o colesterol, e isso se aplica a todas as idades. A alimentação desempenha um papel central. É fundamental evitar o excesso de gorduras saturadas, presentes em carnes vermelhas, frios, embutidos e muitos laticínios, bem como as gorduras trans, encontradas em alimentos ultraprocessados como biscoitos recheados, salgadinhos e frituras industrializadas. O cardiologista Alves alerta que a gordura trans é particularmente prejudicial à saúde cardiovascular.
Outro ponto de atenção é a disseminação de dietas da moda. A chamada “dieta carnívora”, que propõe o consumo exclusivo de carne e a eliminação de vegetais, por exemplo, não é indicada para a redução do colesterol. Segundo Alves, essa é uma invenção que pode ser perigosa. Uma alimentação saudável deve ser equilibrada, com proporções adequadas de proteínas, carboidratos e gorduras saudáveis, privilegiando vegetais, frutas, grãos integrais, leguminosas e fontes de proteína magra. Dietas ricas apenas em carne tendem a ser elevadas em gordura saturada, o que aumenta o colesterol LDL, além de poder elevar o ácido úrico e favorecer a formação de placas nas artérias.
Atividade física regular
A prática de atividade física regular é igualmente crucial. A recomendação geral é acumular entre 150 e 300 minutos de exercícios de intensidade moderada por semana, o que pode ser dividido em sessões de 30 minutos na maioria dos dias da semana. O exercício ajuda a aumentar o colesterol HDL, o “bom” colesterol, e a diminuir o LDL e os triglicerídeos, além de contribuir para o controle do peso, da pressão arterial e da glicose.
Quando o tratamento medicamentoso é necessário
Mesmo com um estilo de vida exemplar, nem sempre é possível controlar o colesterol apenas com dieta e exercícios. Cerca de 70% do colesterol é produzido pelo próprio organismo. Quando os níveis ultrapassam 300 mg/dL, há uma forte indicação de origem genética, a chamada hipercolesterolemia familiar. Nesses casos, a intervenção medicamentosa é fundamental e não deve ser negligenciada.
Os medicamentos mais comuns para o tratamento do colesterol alto são as estatinas, que agem reduzindo a produção de colesterol no fígado. É vital que o paciente siga rigorosamente a prescrição médica e não interrompa o tratamento por conta própria. A interrupção pode fazer com que os níveis de colesterol voltem a subir, aumentando o risco de complicações, assim como ocorre com diabetes e hipertensão. Caso as estatinas isoladamente não sejam suficientes, outros medicamentos podem ser associados, sempre sob orientação e acompanhamento do médico cardiologista.
Combatendo a desinformação sobre medicamentos
Lamentavelmente, as redes sociais se tornaram um terreno fértil para a disseminação de informações falsas sobre saúde, incluindo o tratamento do colesterol. O cardiologista Renato Jorge Alves critica veementemente aqueles que, muitas vezes buscando projeção pessoal, desaconselham o uso de estatinas ou chegam a afirmar que “colesterol não existe”. Ele ressalta que as evidências científicas sobre os benefícios das estatinas são robustas e consistentes há mais de três décadas, com o primeiro grande estudo publicado em 1994. Ignorar essa base científica é um desserviço à saúde pública e pode colocar vidas em risco.
É fundamental que os pacientes busquem informações em fontes confiáveis e sigam as orientações de profissionais de saúde qualificados. A desinformação não apenas prejudica a adesão ao tratamento, mas também fomenta o medo e a descrença em terapias comprovadamente eficazes. Hoje, existem versões genéricas das estatinas, o que as tornou mais acessíveis à população, ampliando o acesso a um tratamento que comprovadamente salva vidas.
Em suma, o controle do colesterol é uma jornada que começa cedo, exige atenção constante aos hábitos de vida e, quando necessário, a adesão a tratamentos médicos baseados em evidências. Ao entender a importância da prevenção desde a infância e ao combater a desinformação, estamos construindo um futuro com mais saúde cardiovascular para todos. Para mais conteúdos informativos e atualizados sobre saúde e bem-estar, continue acompanhando o Renova Receita.
