O Brasil se destaca globalmente por uma particularidade preocupante na área da saúde materno-infantil: o elevado número de nascimentos via cesariana. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere que a taxa ideal de cesarianas não ultrapasse 10% a 15% do total de nascimentos – por se tratar de um procedimento cirúrgico que, embora salvador em emergências, carrega riscos inerentes –, no nosso país essa proporção supera amplamente essa recomendação, alcançando índices que o posicionam entre as nações com as maiores taxas de cirurgias de parto do mundo. Longe de ser apenas uma escolha individual, essa realidade é um reflexo complexo de fatores psicológicos, sociais e estruturais que moldam a experiência das gestantes.

A Realidade das Cesarianas no Cenário Brasileiro

Dados oficiais revelam que a proporção de cesarianas no Brasil excede 60% do total de nascimentos. Na rede privada de saúde, essa taxa se torna ainda mais alarmante, aproximando-se de 90%. Esses números contrastam drasticamente com o parâmetro da OMS e levantam questionamentos sobre o que de fato influencia a via de nascimento de tantas gestantes. Para compreender essa dinâmica, é fundamental olhar além da superfície e investigar as camadas de influência que permeiam o processo decisório.

Desvendando as Influências: A Pesquisa do Unicef

Para aprofundar a compreensão desse fenômeno, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou uma pesquisa que buscou entender o que acontece entre o desejo inicial da gestante e o desfecho do parto. O estudo partiu de dados de 2014 da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que indicavam que sete em cada dez gestantes brasileiras desejavam ter um parto normal no início da gravidez. O objetivo do Unicef foi justamente investigar as barreiras e influências que levam muitas dessas mulheres a mudar de ideia e acabar optando pela cesariana.

Intitulada 'Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes', a pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas, além de 37 profissionais de saúde, nas cidades de São Paulo (SP) e Belém (PA). Foram analisadas experiências tanto na rede pública quanto na rede privada, buscando identificar os múltiplos fatores que operam nesse cenário complexo. Em 2024, a realidade em ambas as capitais espelha a tendência nacional: em São Paulo, 56,19% dos nascimentos foram por cesariana, subindo para 71,05% em hospitais privados; em Belém, as taxas foram de 69,28% no geral e 80,41% na rede particular. Ambas as cidades possuem legislação que garante à gestante o direito de solicitar a cesariana no momento do parto.

Fatores Psicológicos e a Percepção da Dor

No plano psicológico, um dos elementos mais citados pelas participantes do estudo do Unicef foi o medo da dor. Essa apreensão, frequentemente presente no imaginário das gestantes, pesa significativamente na balança, muitas vezes direcionando a preferência para a cesariana, percebida como uma via de nascimento com dor mais controlada e previamente agendada. Em contrapartida, o desejo de uma recuperação mais rápida e a busca por uma experiência mais ativa e protagonizada no parto foram fatores que favoreceram a escolha pelo parto normal.

O Impacto Social e as Narrativas sobre o Parto

Essas crenças individuais estão intrinsecamente ligadas ao plano social. As gestantes são fortemente influenciadas pelas experiências de outras mulheres em seu círculo, especialmente mães, avós e demais familiares. Relatos de partos dolorosos, demorados ou permeados por procedimentos desnecessários contribuem para a construção social do parto normal como uma experiência de grande sofrimento. Stephanie Amaral, especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil, destaca que muitas dessas histórias, embora reais na vivência de quem as conta, na verdade, configuram casos de violência obstétrica – práticas e intervenções que não deveriam ter ocorrido e que deixam marcas profundas.

A naturalização de partos altamente desrespeitosos, com episiotomia indiscriminada, múltiplos procedimentos invasivos sem necessidade ou induções de parto desnecessárias, é algo presente tanto no imaginário coletivo quanto nas vivências diretas. Essas narrativas, passadas de geração em geração ou compartilhadas entre amigas, criam uma aversão ao parto normal, que é então visto como algo a ser evitado a todo custo, em favor de uma cesariana que promete, ainda que falsamente, maior conforto e previsibilidade.

Desigualdades Sociais na Escolha do Parto

O estudo do Unicef também evidenciou um contraste marcante entre usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS) e da rede privada, expondo uma faceta da desigualdade social. Entre as usuárias do SUS, as experiências familiares e comunitárias tendem a valorizar o parto normal, mas por uma razão que revela uma dura realidade: a necessidade de uma recuperação rápida. Mulheres com menor rede de apoio, que precisam cuidar do recém-nascido, de outros filhos e das responsabilidades domésticas sem auxílio, veem no parto normal a chance de retomar suas atividades mais prontamente, apesar dos medos e receios.

No setor privado, a dinâmica é diferente. A ausência de uma rede de apoio sequer foi mencionada como uma desvantagem para a cesariana. Pelo contrário, as mulheres que optam pelo parto normal nessa rede o fazem por compreenderem os benefícios para a saúde da mãe e do bebê. Frequentemente, elas se preparam de forma mais estruturada e têm condições de contratar equipes próprias, como doulas e enfermeiras obstetras, que oferecem suporte contínuo para garantir uma experiência de parto positiva e respeitosa, o que infelizmente é um privilégio de poucos.

Barreiras Estruturais e a Falta de Informação Adequada

Além dos fatores psicológicos e sociais, barreiras estruturais também desempenham um papel crucial. Uma delas, verificada exclusivamente entre usuárias do SUS, é o desejo de realizar a laqueadura (ligadura das trompas), que muitas vezes leva as gestantes a optarem pela cesariana. Elas fazem essa escolha mesmo reconhecendo os riscos da cirurgia e o desconforto do pós-operatório. Isso aponta para uma falha grave na orientação sobre métodos contraceptivos.

Conforme aponta Stephanie Amaral, muitas mulheres não são devidamente informadas sobre a existência e a disponibilidade de outros métodos contraceptivos de longa duração e alta eficácia no SUS, como o implante subdérmico e o DIU (Dispositivo Intrauterino). Além disso, não são orientadas sobre a possibilidade de realizar a laqueadura após um parto normal ou em outro momento que não seja durante a gestação. Essa carência de informação empodera as mulheres a fazerem escolhas baseadas em equívocos, que podem levar a procedimentos cirúrgicos desnecessários com seus respectivos riscos.

Outro fator estrutural reside na própria organização dos serviços de saúde e na centralidade das equipes de assistência. Em muitos cenários, o modelo de cuidado é hospitalocêntrico e excessivamente medicalizado, com rotinas que priorizam a agilidade e a conveniência da instituição e dos profissionais em detrimento da fisiologia do parto e das necessidades da mulher. A falta de tempo para um acompanhamento pré-natal que prepare a gestante de forma integral para o parto normal, a escassez de equipes que ofereçam suporte contínuo e respeitoso durante o trabalho de parto, e até mesmo incentivos financeiros que podem favorecer a cesariana, contribuem para que a balança penda em favor da cirurgia. A ausência de espaços adequados para o trabalho de parto ativo, com recursos para alívio da dor não farmacológico, também limita as opções da gestante e pode reforçar o medo da dor.

Promovendo a Escolha Informada e o Parto Respeitoso

A alta taxa de cesarianas no Brasil é um tema multifacetado que exige uma abordagem compreensiva. Não se trata de culpar gestantes ou profissionais, mas de reconhecer a intrincada teia de influências psicológicas, sociais e estruturais que moldam as decisões e os desfechos do parto. É fundamental que as políticas públicas e as práticas de saúde se concentrem em oferecer informação de qualidade, suporte contínuo e um ambiente que promova o parto normal como a primeira opção segura e saudável, resguardando a cesariana para as situações em que ela é realmente necessária para salvar vidas.

Somente através do empoderamento das mulheres com conhecimento e do fortalecimento de um modelo de assistência que respeite a fisiologia do corpo e a autonomia feminina, será possível reverter essa tendência. A transformação passa por desconstruir mitos, combater a violência obstétrica e garantir que cada gestante tenha a oportunidade de vivenciar o nascimento de seu filho de forma informada, segura e respeitosa. Continue acompanhando o Renova Receita para ter acesso a conteúdos variados e informações confiáveis que contribuem para o seu dia a dia e bem-estar.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br